O pessoal da Mandala está no processo de gravação da trilogia baseada em três poesias da série “Poeta em Nova York” escritas pelo espanhol Federico Garcia Lorca, nos anos de 1929 e 1930, e que estão em domínio público.

“A proposta do projeto é tornar sinestésico em imagem e som os presságios frente a eminente quebra da bolsa de Nova York. Na percepção de uma cidade em caótica expansão, marcada pelo abandono e violência ética, humana, social e ambiental“.


O primeira poesia, escrita em 1929, mesmo ano do tratado de Latrão, assinado pelo ditador fascista Benito Mussolini, então Chefe do Governo italiano, discute a mecanização do homem, a verticalização e desumanização dos grandes centros urbanos.


O material será gravado em março de 2008 na igreja da Consolação e outros locais de São Paulo.
Gabriel
Pouco a pouco os mendigos foram adotando Gabriel, uma vez por semana eles decidiam em assembléia quem iria doar um pedaço do corpo para o banquete de Crowley . Como ninguém se oferecia, um referendo final era dado pelos mais velhos que decidiam quem seria o doador do corpo sem alma.
Os pedintes mais velhos já não possuíam orelhas e muitos dedos do corpo, o ritual antropofágico não poupava ninguém, e naquela manhã mal cheirosa de Sábado auto-existencial, decidiram que Gabriel iria doar a orelha esquerda e algumas lascas de carne da coxa direita.
Gabriel experimentou da própria carne, ensandesceu-se com o próprio sabor, queria se provar inteiro e num ímpeto insano cortou todos os dedos do pé e chorou como uma criança, chorou como uma criança vadia à procura de sexo, a procura de Penny Lane, a procura dos filhos inexistentes.
Yalutan já não possuía mais dia, o sol se pôs para sempre e a sombra da noite protegia os vampiros intergalácticos. O romance de Gabriel e Penny Lane não estava num pedaço de papel, não havia mais céu. Deus abandonara a terra antes mesmo de cria-la colocando os peixes num aquário, esquecendo eternamente de limpá-lo.
No dia seguinte ao banquete bacântico, Gabriel acordou indisposto, vomitou religiosamente até as tripas, pôs para fora seu próprio corpo junto com pequenas manchas de sangue que gradativamente iam pintando o chão onde os mendigos esparramados cantavam “La Javanesa” de Serge Gainsbourg.
Os pés deformados de Gabriel latejavam, suicídio era impossível por causa do micro chip, o martírio e a tortura eram a constante do povo terráqueo que esperava o fim sem o livre arbítrio.
Um senhor bem vestido e de fino trato se aproximou dos mendigos que se alimentavam do vômito ensangüentado, se sentou ao lado de Gabriel e começou a sorrir, disse que tinha alcançado a liberdade. Aquele transeunte de olhos verdes e sorriso tímido, parecia ter saído de uma antiga propaganda de televisão, era daquelas pessoas que nasceram para figurar. Com as mãos trêmulas, ele agarrou a mão direita de Gabriel e falou:
- “Vim de longe, muito longe. Estava em Jesebéu quando o cataclisma começou, perdi tudo e todos, só havia restado minha mulher que era católica e fora aniquilada pela resolução da Cúpula”.
Desde então venho caminhando pelas ruínas tortuosas desse melancólico planeta e para piorar eu ainda carrego comigo o estigma de ser um homem clonado. Fizeram seis clones de mim ao mesmo tempo, não sei ao certo quem sou e porque estou aqui.
Outro dia, certamente num domingo chuvoso e escuro, estava caminhando pela estrada que liga Yalutan com Sereviça quando encontrei com uma cópia minha. Paramos, olhamos um para o outro, ele estava vestido exatamente como eu, mas estava indo na direção oposta. Tentei estabelecer um diálogo, mas não consegui sequer um aperto de mão de mim mesmo. Frio e séptico, ele continuou seu caminho e segui o meu, não tentei pensar em nada para não sofrer nenhuma punição, mas não teve jeito, sucumbi na estrada de terra e tive nove convulsões consecutivas.”
O senhor pôs-se a chorar e só então Gabriel percebeu que se tratava de mais um ser humano em busca de carne e auto-piedade, ofereceu seu dedo indicador mas ele não quis. Queria somente dividir sua angustia com mais alguém. Mas mais cedo ou mais tarde estaria também partilhando seu corpo com aqueles seres que ocupavam as ruas desertas de Yalutan.
Cúpula
A Cúpula Intergaláctica decidiu acabar com um dos últimos esportes de massa do planeta, o futebol de campo. Há muito tempo o esporte perdera o encanto que havia o consagrado no passado.
Mesmo assim, o futebol continuava atraindo milhares de pessoas aos estádios supervisionados pelo Conselho Intergaláctico, todos os domingos tinham jogos e como todos os dias passaram a ser domingo, todos os dias tinham jogos.
Num domingo chuvoso e escuro, milhares de estádios lotados de milhares de pessoas sucumbiram instantaneamente aos vinte e três minutos do segundo tempo. Curiosamente, todas as partidas estavam empatadas em zero a zero. Todos os times de futebol passaram a não existir a partir dos vinte e três minutos do segundo tempo. O jogo acabou.
Milhares de mulheres tentaram o suicídio e todas acabaram no chão com crises convulsivas. A vida na terra tornou-se improvável, a Cúpula Intergaláctica não deixava o ser humano matar e se matar, mas exterminava aos montes quando bem entendia.
Prelúdio
O movimento contínuo de expansão do universo ainda é resultado da grande explosão. Com um pouco de prudência, fica fácil entender que o Big Bang nunca deixou de acontecer. Ele não é passado. Coexiste, agora mesmo. Porém, talvez antes dele o universo tenha se contraído numa imensa massa compacta de vidas futuras. Todas aguardando o amadurecimento de seus carmas.
Com isso em mente, é razoável pensar que quando essa expansão infinita acabar a contração infinita volte a acontecer e um outro Big Bang forje novas vidas. Quem sabe também seja aceitável considerar que esse movimento de expansão e contração do universo é exatamente o mesmo de contração e relaxamento do coração. Sim? O que nosso coração bombeia de sangue em um minuto, o universo demora zilhares de anos pra contrair e dilatar.
O centro do universo reside bem no meio do nosso coração. Se entendermos as coisas a partir do coração, se entendermos que a mente está dentro do músculo miocárdio e não na cabeça, se afinarmos nossa percepção para a memória afetiva e resolvermos ser mais intuitivos do que racionais, talvez estejamos mais próximos de entender a lógica do universo, que é a lógica da vida.
Talvez possamos entender também que o futuro e o passado não existem, que os homens são todos iguais e que o ser ancestral reside nesse exato momento dentro de nós.





É certo que não estamos alterando as placas de trânsito para provocar um caos na sinalização da cidade de São Paulo e atrapalhar o trânsito. Somos poetas visuais, militantes líricos, defensores do olhar múltiplo e humano, embebidos pela visceralidade poética de Don Quijote – o cavaleiro andante. Não há violência. Não há crime em nossas interações com a cidade. Por isso pedimos o direito de respota para tantas acusações, para o discurso parcial, para a violência de vossas palavras.
Resignificar símbolos de automação, fomentar o questionamento do espaço público, alimentar a cidade de arquetipos miticos e espirituosos. Mas parece que não convém amplificarem nosso questionamento artístico, afinal é preciso classificar, é preciso pensar no prejuízo público, é preciso passar um pano com alcool e água para que nossos adesivos sejam retirados. Mas o que convém perguntar? Despertar um olhar transformador?
“É vandalismo, é uma gangue”, assim fica simples (é só mandar prender senhor prefeito), afinal não há tempo para novas percepções, para desnudar a precipitação do primeiro olhar. E tratando-se do poder público e dos meios de comunicação, olhares imediatistas tornam-se fatais, não? Quanto tempo perdido em decisões editorias e governamentais feitas com base em maniqueísmos simplistas.
Vamos amplificar com imparcialidade a interação do humano no espaço público? Ou mantemos o clima de denuncismo parcial e superficial? Queremos olhar as coisas com calma em nossa cidade, sem tantos juízos de valores, apenas sentir por nós mesmos. Por isso nossas exposições a céu aberto, nosso convite a contemplação de novas possibilidades urbanas, de interação humana, de desaturação visual.
Não prejudicamos a população com nossas interferências, as placas podem ser removidas com um simples produto de limpeza como foi dito – não é preciso tanto sensacionalismo ou imediatismo Sr. Adauto Martinez Filho (diretor de operações da CET). Também não facilitamos acidentes colando novos simbolos visuais sobre a sinalização de trânsito, afinal se o motorista não vê uma placa com o sentido da rua, é obrigado a parar e olhar para os lados, respirar um pouco no meio do trânsito caótico, ver as coisas, aliviar a tensão do seu ser eminentemente urbano.
“O condicionamento se reorganiza na percepção da mudança do código. Sentado-brinco, olhando-canto, percebo que existo.” Beija-flor, integrante do grupo Don Quijote.
Estamos propondo exposições a céu aberto. No começo dos dois sentidos da avenida Brasil, por exemplo, haviam placas de entrada e saída de museu. Durante a passagem alegórica de carros alegóricos pela via, entrava-se em contato com placas líricas (piões e pipas). Denominamos de “Zona de la Alegria”. Na Rua Estados Unidos inúmeras placas brancas foram colocadas para emanar tranquilidade e vazio espiritual à cidade, fazendo referência ao respiro e a purificação necessária ao ser humano. Denominamos de “Zona del Zen”. O primeiro olhar bruto tende a querer definir e não deixar perceber e sentir pelo corpo toda a carga que as pessoas recebem e julgam através da mente.
“È uma interferência parecida como o grafite, mas tem outra linguagem. Ao invés de depredação, é uma discussão sobre a retomada do espaço público. Aparentemente é depredatória, mas não é. Essas imagens grudadas servem para discutir o espaço público.” Silvio Miele, professor de comunicação social e arte multimídia da PUC de São Paulo.
Despertar e amplificar o sensorial. Não queremos que as pessoas pensem a respeito, mas sintam a respeito. As placas não estão em oposto, ou não são contra a cidade. Existe algo que conecte essas placas à cidade. São os seres humanos. E infelizmente os seres humanos estão muito esquecidos na cidade. Nós acreditamos no ser humano. Proibido árvores na paulista, minotauro, polvos, piões e pipas na av. Brasil. Buscamos trazer uma fauna de lirismo para uma cidade carregada de maniqueísmos. As nuanças entre o branco e preto. Não somos artistas ou vândalos. O nosso trabalho traz essa fauna que está extinta, que geralmente se encontra nas galerias encaixotas, nas salas de cinema de 15 reais, ou na periferia nas comunidades de manifestação artística. Porque isso não pode se alastrar pela cidade? Por que a publicidade se alastra de uma maneira tão opressora e violenta e não é questionada ou não é criminosa. Vândalas são placas que querem colocar poesia e nuanças em espaços públicos? Isso é vandalismo? O que é vandalismo?
Porque choca tanto quando o patrimônio público é interagido? E por que não choca quando o patrimônio privado usurpa o patrimônio público? Porque isso não é questionado e é tratado com tanto respeito pelos meios de comunicação que deveriam fomentar esse tipo de discussão? Vejam que curioso o anúncio de uma das maiores agências de publicidade do país (agência África), se não a maior. A placa é exatamente igual a uma placa de sinalização, aplicada exatamente nos postes de sinalização. Onde estão as denúncias de vandalismo? Onde estão as preocupaçõesde acidentes? Onde andará o poder público em relação as intervenções lícitas da indústria no espaço público, da publicidade?
Não queremos dar respostas. Fazemos perguntas. São perguntas para o corpo. Para as pessoas sentirem nossas perguntas. Não para as pessoas queimarem neurônios. É diferente! Se fosse assim estaríamos carregando uma bandeira panfletária, partidária, de significado único. Nossos símbolos valem mais que nossas palavras. Nossa energia não é a do protesto carregado de ódios ou angustias. Somos movidos por nossas próprias subjetividades. Acreditamos no coletivo como fruto de individuos com identidade, únicos, repletos de amor. E é com isso que produzimos nossas intervenções, que convidamos a todos para interagirem.
“Basta contemplar isso – o que permanece, o que se passa… sem acrescentar nenhum pensamento, sem se identificar com o que acontece, sem preocupação de si. Azul é a resposta do céu, verde a dos campos”. Jean-Yves Leloup, comentário sobre a IX etapa Zen
Saudações,
Don Quijote