Capitulo IV

25 02 2007

Gabriel

Pouco a pouco os mendigos foram adotando Gabriel, uma vez por semana eles decidiam em assembléia quem iria doar um pedaço do corpo para o banquete de Crowley . Como ninguém se oferecia, um referendo final era dado pelos mais velhos que decidiam quem seria o doador do corpo sem alma.

Os pedintes mais velhos já não possuíam orelhas e muitos dedos do corpo, o ritual antropofágico não poupava ninguém, e naquela manhã mal cheirosa de Sábado auto-existencial, decidiram que Gabriel iria doar a orelha esquerda e algumas lascas de carne da coxa direita.

Gabriel experimentou da própria carne, ensandesceu-se com o próprio sabor, queria se provar inteiro e num ímpeto insano cortou todos os dedos do pé e chorou como uma criança, chorou como uma criança vadia à procura de sexo, a procura de Penny Lane, a procura dos filhos inexistentes.

Yalutan já não possuía mais dia, o sol se pôs para sempre e a sombra da noite protegia os vampiros intergalácticos. O romance de Gabriel e Penny Lane não estava num pedaço de papel, não havia mais céu. Deus abandonara a terra antes mesmo de cria-la colocando os peixes num aquário, esquecendo eternamente de limpá-lo.

No dia seguinte ao banquete bacântico, Gabriel acordou indisposto, vomitou religiosamente até as tripas, pôs para fora seu próprio corpo junto com pequenas manchas de sangue que gradativamente iam pintando o chão onde os mendigos esparramados cantavam “La Javanesa” de Serge Gainsbourg.

Os pés deformados de Gabriel latejavam, suicídio era impossível por causa do micro chip, o martírio e a tortura eram a constante do povo terráqueo que esperava o fim sem o livre arbítrio.

Um senhor bem vestido e de fino trato se aproximou dos mendigos que se alimentavam do vômito ensangüentado, se sentou ao lado de Gabriel e começou a sorrir, disse que tinha alcançado a liberdade. Aquele transeunte de olhos verdes e sorriso tímido, parecia ter saído de uma antiga propaganda de televisão, era daquelas pessoas que nasceram para figurar. Com as mãos trêmulas, ele agarrou a mão direita de Gabriel e falou:

- “Vim de longe, muito longe. Estava em Jesebéu quando o cataclisma começou, perdi tudo e todos, só havia restado minha mulher que era católica e fora aniquilada pela resolução da Cúpula”.

Desde então venho caminhando pelas ruínas tortuosas desse melancólico planeta e para piorar eu ainda carrego comigo o estigma de ser um homem clonado. Fizeram seis clones de mim ao mesmo tempo, não sei ao certo quem sou e porque estou aqui.

Outro dia, certamente num domingo chuvoso e escuro, estava caminhando pela estrada que liga Yalutan com Sereviça quando encontrei com uma cópia minha. Paramos, olhamos um para o outro, ele estava vestido exatamente como eu, mas estava indo na direção oposta. Tentei estabelecer um diálogo, mas não consegui sequer um aperto de mão de mim mesmo. Frio e séptico, ele continuou seu caminho e segui o meu, não tentei pensar em nada para não sofrer nenhuma punição, mas não teve jeito, sucumbi na estrada de terra e tive nove convulsões consecutivas.”

O senhor pôs-se a chorar e só então Gabriel percebeu que se tratava de mais um ser humano em busca de carne e auto-piedade, ofereceu seu dedo indicador mas ele não quis. Queria somente dividir sua angustia com mais alguém. Mas mais cedo ou mais tarde estaria também partilhando seu corpo com aqueles seres que ocupavam as ruas desertas de Yalutan.

Cúpula

A Cúpula Intergaláctica decidiu acabar com um dos últimos esportes de massa do planeta, o futebol de campo. Há muito tempo o esporte perdera o encanto que havia o consagrado no passado.
Mesmo assim, o futebol continuava atraindo milhares de pessoas aos estádios supervisionados pelo Conselho Intergaláctico, todos os domingos tinham jogos e como todos os dias passaram a ser domingo, todos os dias tinham jogos.

Num domingo chuvoso e escuro, milhares de estádios lotados de milhares de pessoas sucumbiram instantaneamente aos vinte e três minutos do segundo tempo. Curiosamente, todas as partidas estavam empatadas em zero a zero. Todos os times de futebol passaram a não existir a partir dos vinte e três minutos do segundo tempo. O jogo acabou.

Milhares de mulheres tentaram o suicídio e todas acabaram no chão com crises convulsivas. A vida na terra tornou-se improvável, a Cúpula Intergaláctica não deixava o ser humano matar e se matar, mas exterminava aos montes quando bem entendia.


Actions

Informations

Leave a comment

You can use these tags : <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>