10 01 2007





É certo que não estamos alterando as placas de trânsito para provocar um caos na sinalização da cidade de São Paulo e atrapalhar o trânsito. Somos poetas visuais, militantes líricos, defensores do olhar múltiplo e humano, embebidos pela visceralidade poética de Don Quijote - o cavaleiro andante. Não há violência. Não há crime em nossas interações com a cidade. Por isso pedimos o direito de respota para tantas acusações, para o discurso parcial, para a violência de vossas palavras.
Resignificar símbolos de automação, fomentar o questionamento do espaço público, alimentar a cidade de arquetipos miticos e espirituosos. Mas parece que não convém amplificarem nosso questionamento artístico, afinal é preciso classificar, é preciso pensar no prejuízo público, é preciso passar um pano com alcool e água para que nossos adesivos sejam retirados. Mas o que convém perguntar? Despertar um olhar transformador?
“É vandalismo, é uma gangue”, assim fica simples (é só mandar prender senhor prefeito), afinal não há tempo para novas percepções, para desnudar a precipitação do primeiro olhar. E tratando-se do poder público e dos meios de comunicação, olhares imediatistas tornam-se fatais, não? Quanto tempo perdido em decisões editorias e governamentais feitas com base em maniqueísmos simplistas.
Vamos amplificar com imparcialidade a interação do humano no espaço público? Ou mantemos o clima de denuncismo parcial e superficial? Queremos olhar as coisas com calma em nossa cidade, sem tantos juízos de valores, apenas sentir por nós mesmos. Por isso nossas exposições a céu aberto, nosso convite a contemplação de novas possibilidades urbanas, de interação humana, de desaturação visual.
Não prejudicamos a população com nossas interferências, as placas podem ser removidas com um simples produto de limpeza como foi dito - não é preciso tanto sensacionalismo ou imediatismo Sr. Adauto Martinez Filho (diretor de operações da CET). Também não facilitamos acidentes colando novos simbolos visuais sobre a sinalização de trânsito, afinal se o motorista não vê uma placa com o sentido da rua, é obrigado a parar e olhar para os lados, respirar um pouco no meio do trânsito caótico, ver as coisas, aliviar a tensão do seu ser eminentemente urbano.
“O condicionamento se reorganiza na percepção da mudança do código. Sentado-brinco, olhando-canto, percebo que existo.” Beija-flor, integrante do grupo Don Quijote.
Estamos propondo exposições a céu aberto. No começo dos dois sentidos da avenida Brasil, por exemplo, haviam placas de entrada e saída de museu. Durante a passagem alegórica de carros alegóricos pela via, entrava-se em contato com placas líricas (piões e pipas). Denominamos de “Zona de la Alegria”. Na Rua Estados Unidos inúmeras placas brancas foram colocadas para emanar tranquilidade e vazio espiritual à cidade, fazendo referência ao respiro e a purificação necessária ao ser humano. Denominamos de “Zona del Zen”. O primeiro olhar bruto tende a querer definir e não deixar perceber e sentir pelo corpo toda a carga que as pessoas recebem e julgam através da mente.
“È uma interferência parecida como o grafite, mas tem outra linguagem. Ao invés de depredação, é uma discussão sobre a retomada do espaço público. Aparentemente é depredatória, mas não é. Essas imagens grudadas servem para discutir o espaço público.” Silvio Miele, professor de comunicação social e arte multimídia da PUC de São Paulo.
Despertar e amplificar o sensorial. Não queremos que as pessoas pensem a respeito, mas sintam a respeito. As placas não estão em oposto, ou não são contra a cidade. Existe algo que conecte essas placas à cidade. São os seres humanos. E infelizmente os seres humanos estão muito esquecidos na cidade. Nós acreditamos no ser humano. Proibido árvores na paulista, minotauro, polvos, piões e pipas na av. Brasil. Buscamos trazer uma fauna de lirismo para uma cidade carregada de maniqueísmos. As nuanças entre o branco e preto. Não somos artistas ou vândalos. O nosso trabalho traz essa fauna que está extinta, que geralmente se encontra nas galerias encaixotas, nas salas de cinema de 15 reais, ou na periferia nas comunidades de manifestação artística. Porque isso não pode se alastrar pela cidade? Por que a publicidade se alastra de uma maneira tão opressora e violenta e não é questionada ou não é criminosa. Vândalas são placas que querem colocar poesia e nuanças em espaços públicos? Isso é vandalismo? O que é vandalismo?
Porque choca tanto quando o patrimônio público é interagido? E por que não choca quando o patrimônio privado usurpa o patrimônio público? Porque isso não é questionado e é tratado com tanto respeito pelos meios de comunicação que deveriam fomentar esse tipo de discussão? Vejam que curioso o anúncio de uma das maiores agências de publicidade do país (agência África), se não a maior. A placa é exatamente igual a uma placa de sinalização, aplicada exatamente nos postes de sinalização. Onde estão as denúncias de vandalismo? Onde estão as preocupaçõesde acidentes? Onde andará o poder público em relação as intervenções lícitas da indústria no espaço público, da publicidade?
Não queremos dar respostas. Fazemos perguntas. São perguntas para o corpo. Para as pessoas sentirem nossas perguntas. Não para as pessoas queimarem neurônios. É diferente! Se fosse assim estaríamos carregando uma bandeira panfletária, partidária, de significado único. Nossos símbolos valem mais que nossas palavras. Nossa energia não é a do protesto carregado de ódios ou angustias. Somos movidos por nossas próprias subjetividades. Acreditamos no coletivo como fruto de individuos com identidade, únicos, repletos de amor. E é com isso que produzimos nossas intervenções, que convidamos a todos para interagirem.
“Basta contemplar isso - o que permanece, o que se passa… sem acrescentar nenhum pensamento, sem se identificar com o que acontece, sem preocupação de si. Azul é a resposta do céu, verde a dos campos”. Jean-Yves Leloup, comentário sobre a IX etapa Zen
Saudações,
Don Quijote
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